19/06/2004 12:57
O MUNDO DOS BONS HOMENS
Estava uma tarde agradável, já tinha cuidado dos alecrins, dos cravos do meu jardim e plantado as mudas de Jasmim que logo florescerá, visto que já estão enormes e cheias de vida.
O jardim do meu avô é o mais lindo que já vi, ele mora do lado da minha casa, e lá tem uma variedade de flores. Quando é tempo das ameixas e gabirobas fica tudo colorido e eu me delicio com estas. Às vezes, ele me dá helioconias, as quais enfeitam minha casa. O que mais gosto de lá são as borboletas, que me trazem aos olhos cores das quais, penso que, nunca tinha visto antes.
O meu avô é um senhor muito conversador, do tipo brabão, que fala alto e tudo mais. Sua nova esposa passa aqui (Curitiba) o verão inteiro, depois volta para Recife, sua cidade natal, porque Curitiba é fria a maior parte do ano e ela fica doente.
Naquela tarde, começamos a conversar sobre, as mudas de alface que ele havia plantado e muitas outras coisas, quando percebi, já estava sentada em um banquinho na varanda da casa dele e ele me contava que um dia em Caxias (no Rio Grande do Sul, somos todos de lá), estava saindo do trabalho para almoçar, no caminho encontrou um rapaz, do qual, não conhecia mais sabia que morava por perto, pois, sempre topava com ele e quando isso acontecia, trocavam uma simpática saudação. O vô me disse que sabia que ele tinha sido preso algumas vezes, mais não sabia como estava vivendo naquela época e nem se tinha família.
O caso é que, quando se encontraram, e os dois se cumprimentaram, o rapaz pediu dinheiro para comer, estava com fome e não tinha nada, então, me avô pediu que o acompanhasse, pois, estava indo almoçar e que naquele dia seria seu convidado. Seguiram então, conversando um pouco, quando chegaram no restaurante meu avô entrou primeiro e nesse momento ouviu-se um grito e o homem que o acompanhava saiu correndo. Um policial o havia reconhecido, pois, escapara da prisão naquela semana e então atirou no rapaz que caiu logo em seguida, sem mais nem um sopro de vida.
Fiquei olhando para o chão e quando olhei para meu avô, também olhava para o mesmo, ficou um tempo assim, depois me olhou concluindo: Se eu tivesse dado o dinheiro a ele; Eu queria que ele se alimentasse bem; O pobre homem morreu com fome.
Lembrando dessa história e do olhar desolador do meu avô, não consegui conter as lágrimas. Mas naquele momento, não ousei chorar, com medo de faze-lo se sentir mais culpado ainda, me limitei a ficar calada e me odiei por isso. Queria dizer que talvez se o rapaz não tivesse corrido ou dizer que muitas pessoas nem se importam com a fome dos outros... Mas não consegui dizer uma palavra. Fiquei calada e por alguns momentos ele também.
enviada por Elis
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